S. Bernardo, abade e doutor da Igreja
(1094-1153)
20 de agosto
MO – Missal Romano – pág. 950 – Leccionário Santoral (VII) – pág. 259
(Comum dos Doutores da Igreja pág. 527
(ou: Comum dos santos (religiosos) pág. 562
Bernardo, confessor e doutor da Igreja, nasceu em Fontaine-les-Dijon, França, no ano de 1094, e morreu em Claraval, em 1153. Foi o terceiro dos sete filhos duma nobre família borgonhesa. Aos nove anos entrou na escola de Chatillon-sur-Seine, que dirigiam uns cónegos. Depressa se descobriram os seus talentos extraordinários. Era artista, poeta e orador. […]
Assim começa a breve biografia deste Santo, que pode ser lida integralmente no III volume da obra «Santos de cada dia – Maio, junho, julho e agosto», publicada pelo Secretariado Nacional do Apostolado da Oração – 4ª edição, revista e atualizada por António José Coelho, S.J., Editorial A.O., Braga 2003, aqui transcrita, com a devida vénia.
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Programa
Cânticos
Autor
Ver ainda: LIVRO DO SALMISTA Ano C – págs. 176-178
Observação
Para o Ordinário da Missa aconselham-se os cânticos do Cantoral Nacional para a Liturgia [CNL],
publicado pelo Secretariado Nacional de Liturgia (julho de 2019):
- Acto penitencial – números 11-26
- Glória – números 27-31
- Aleluia – números 44-57
- Santo – números 89-97
- Cordeiro de Deus – números 114-123.
Oração Universal | Nós Vos rogamos, ouvi-nos, Senhor [N. 149]
Biografia (cont.)
A sua beleza viril e amável atraía todos os olhares. Estatura alta e flexível, cabeleira loira, olhos grandes e azuis, que reflectiam a pureza de anjo, pele fina e rosada com graça inefável, que parecia o revérbero da sua beleza interior. A mãe tinha-lhe recomendado a devoção terna a Maria Santíssima e esta foi para ele a salvação naqueles anos juvenis, cheios de facilidades, de promessas e de sonhos.
Aos 23 anos perdeu a mãe. O mundo cobiçava-o. Horácio e Virgílio, que lia e imitava com paixão, indicavam-lhe o campo da poesia e do amor. O seu biógrafo conta-nos como se lhe enternecia e impressionava o coração com o amor. Mas Bernardo sabia o que é céu e o que é pureza. Para vencer-se contra uma tentação importuna da carne, lançou-se num tanque existente entre o seu castelo e a vizinha cidade de Dijon. Desde tal dia, formou o plano decidido de ser todo para Deus.
Em 1113 entrou, com 30 jovens nobres, na recém-fundada e periclitante abadia de Cister. «Isto é loucura», diziam-lhe os irmãos assustados. Mas logo eles mesmos lhe seguiram o exemplo. O postulante entusiasta arrastou atrás de si um tio, quatro irmãos e 25 amigos!
Bernardo foi monge perfeito desde o primeiro dia. Empenhava-se principalmente na regra do trabalho, que era um dos pontos capitais da reforma cisterciense. A seguir ao trabalho manual, a sua ocupação favorita era a leitura da Sagrada Escritura e dos Santos Padres. «As coisas apreciadas na fonte têm mais sabor». Lia meditando, praticando aquilo a que ele chamava a ruminação dos Salmos.
A sua modéstia dos olhos era tal que passou o Noviciado sem reparar no teto que a sala de estudo tinha, e sem saber por muito tempo que a luz da igreja vinha de três janelas na ábside.
No ano de 1115, o seu abade Estêvão mandou-o com doze companheiros fundar, no vale do Absíntio, aquilo a que S. Bernardo chamou Vale claro (Claraval). Pela duração de 40 anos iria desenvolver ali fecunda atividade apostólica. No novo mosteiro organizou a vida monacal com todo o rigor da pobreza cisterciense. Leite, peixe e ovos não apareciam nunca no refeitório. No princípio, um punhado de bolotas considerava-se já grande presente. Até no dia de Páscoa não havia senão ervilhas e favas, sem outro condimento que não fosse sal e azeite. «Se conhecêsseis a obrigação do monge, dizia S. Bernardo, regaríeis com lágrimas cada bocado que meteis à boca. Estamos no claustro para chorar os nossos pecados e os do povo».
A fama de santidade e o espírito de Claraval cresciam constantemente. Poucos anos depois, os doze primeiros monges tinham dado lugar a 500, e multiplicavam-se em novas e constantes fundações. Sempre que S. Bernardo saía de Claraval, voltava com uma multidão de conversos, clérigos e leigos, gentis-homens e letrados, aristocratas e sábios, que buscavam a paz da alma, a união com Deus e o desprendimento das criaturas. Ninguém podia resistir àquele terrível caçador de almas, que no ouro e na prata «só via um pouco de terra branca e amarela, à qual unicamente podia o erro dos homens dar algum valor».
Até nos patíbulos e tabernas encontrava seguidores. Um dia, deu com um homem que era levado a enforcar; pediu que lho dessem para o enforcar com as suas próprias mãos. Queria cravá-lo na cruz da vida religiosa; e conseguiu-o. Noutra ocasião, passava ao lado duma taberna e ofereceu-se para jogar com um viciado empedernido. «E que vamos jogar?» – «Tu, respondeu o Santo, jogarás a tua alma; eu, a minha mula». Jogaram de facto. Ganhou Bernardo e exclamou: «Ganhei a tua alma». E levou-o consigo para Claraval.
Tornou-se famoso o seu discurso aos estudantes de Paris: «Meus filhos, quem vos ensinará a fugir da ira que há de vir? Ai de vós que tendes a chave da ciência e do poder, não entrais, nem deixais entrar os outros! São chaves que roubastes, não recebestes… Tende compaixão dos outros, tende compaixão das vossas almas, do sangue que foi derramado por vós. A vossa castidade corre perigo no meio das delícias; a vossa humildade morre no meio das riquezas. Saí de Babilónia, saí e salvai as vossas almas».
Quando terminou, lançaram-se vinte jovens aos pés de Bernardo, pedindo-lhe a admissão no mosteiro. No dia seguinte, quando se dirigiam para Claraval, disse o Santo: «Voltemos a Paris». E à entrada da cidade, encontrou-se com outros cinco jovens que pediam o hábito. «Agora partamos, o número está completo».
O nome de Bernardo tornou-se célebre em toda a Igreja. Foi chamado para secretário do Concílio de Troyes, em 1128, e para decidir sobre os direitos do antipapa Anacleto, em 1130. Por este motivo, teve de fazer nada menos que três viagens a Roma desde 1132 até 1137.
No ano de 1139 assistiu ao segundo Concílio de Latrão. E no mesmo ano empreendeu a campanha teológica contra Abelardo, herege antitrinitário. Em 1144, foi encarregado pelo papa Eugênio IV da pregação da segunda cruzada; com tanto êxito que até o rei de França e sua esposa se apresentaram para receber a cruz. S. Bernardo teve de fabricar cruzes com tiras do seu hábito, porque já não havia pano para tantos que vinham para se inscrever como cruzados. A seguir passou à Alemanha para completar a sua propaganda. Mas a expedição foi um desastre, pois os chefes altercaram entre si durante todo o percurso; não teria acontecido isto se Bernardo tivesse partido com eles. Todos lho estranharam e o seu prestígio decaiu; foi a parte de sofrimentos que Deus juntou às alegrias espirituais dos dois últimos anos da sua vida.
Pode dizer-se que até à morte realizou um trabalho imenso. Tinham-se fundado 163 mosteiros, na França, na Alemanha, na Suécia, na Inglaterra, na Irlanda, na Suíça, na Itália, na Espanha e em Portugal (Alcobaça). Isto devido a um homem que sempre sofreu, que obrigava Deus, por assim dizer, a ressuscitá-lo cada manhã.
Escreveu numerosas obras, milhares de cartas, mais de 300 sermões; interveio em todas as disputas doutrinais, em todas as grandes questões religiosas e seculares da época. Por ordem de tempo, considera-se o último dos Padres da Igreja. Um seu editor, falecido em 1707, Mabillon, escreveu sobre ele: «É o último dos Padres mas iguala os maiores».
A liberdade apostólica de S. Bernardo era própria das almas entregues plenamente a Deus, que não olham nunca para os homens senão para amá-los e fazer-lhes bem. Escrevia ao Papa, aos Reis e aos Bispos, ou louvando acertos ou repreendendo maus passos. «A honra da Igreja ficou gravemente comprometida durante o vosso pontificado», escrevia a Honório II, enganado pela diplomacia francesa.
Nesta atividade apostólica, com o desejo de salvar a todos, não esquecia S. Bernardo a sua própria alma. Tratava-se, diz ele, como se transportasse uma gota do sangue de Cristo num vaso de vidro. «A vista do mundo impressiona-o. Ama a soledade e a oração. Se deixa estas, é por caridade e pela glória de Deus». «Os negócios de Deus são os meus negócios; nada do que disser respeito a Deus me é estranho». Não esperava nada na terra, senão o triunfo de Cristo, a paz da Igreja. A sua alegria, a sua esperança são os méritos e os sofrimentos de Cristo. Com todos eles fez um ramalhete e levava-o sempre consigo para dele gozar: «Saber Jesus Crucificado, esta é a minha filosofia».
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